Ciclo de Conferências 2015 - FENPROF

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Reportagem da RTP

É PRECISO VALORIZAR O EMPENHO DOS PROFESSORES

Protagonistas de uma profissão que tem vindo a ser desvalorizada, os professores têm sido ignorados em grandes decisões sobre matérias em que as suas vozes deveriam ser ouvidas. Desgastados, mas ainda assim empenhados, estarão os docentes a ser respeitados pelo poder e pela sociedade? Qual o sentido da(s) mudança(s) que todos entendem necessária(s) e urgente(s)?

Estas foram, em sentido lato, algumas das preocupações evidenciadas na conferência que a FENPROF promoveu este sábado no Porto – Autoridade Profissional Docente: Sentidos de uma Mudança Urgente. Um tema que tem hoje “uma importância acrescida, face à funcionarização crescente da profissão docente, ao apoucamento da sua dignidade profissional e à desvalorização da sua formação”, como referiu Manuela Mendonça, do Secretariado Nacional da Federação e coordenadora do Sindicato dos Professores do Norte (SPN), na abertura da sessão, que decorreu no auditório da Escola Secundária Carolina Michaelis. Fernando Ilídio Ferreira (Instituto de Educação da Universidade do Minho), Manuela Esteves (Inatituto de Educação da Universidade de Lisboa) e Isabel Baptista (Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica) foram os oradores convidados.

CANSAÇO vs ENERGIA. Fernando Ilídio Ferreira apresentou os resultados do estudo “Teachers Exercising Leadership: challenges and opportunities”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Coordenado por Maria Assunção Flores, e com duração de três anos (2011-2014), a investigação pretendia identificar fontes de persistência da motivação dos professores e compreender o modo como eles veem o seu trabalho e constroem a sua profissionalidade. Entre os aspetos mais referidos pelos docentes, estão o aumento do volume de trabalho, a diversificação de funções e tarefas e ainda a pressão dos prazos; fatores de burocratização do trabalho e funcionarização dos professores que “têm afetado a sua identidade e profissionalismo ao desviar a sua atenção do que constitui a essência da sua profissão: ensinar”, lê-se no documento. Ilídio Ferreira referiu que “a asfixia burocrática que reina nas escolas acaba por retirar tempo e espaço aos professores para se dedicarem a tarefas didáticas e pedagógicas e diminui a capacidade de reflexão em relação ao seu trabalho”.

Entre outras conclusões, o estudo evidencia preocupações dos professores relativamente à instabilidade profissional, à precariedade laboral e à degradação da condição docente e da imagem social da profissão. “A intensificação do trabalho aliada à falta de reconhecimento por parte dos poderes políticos e administrativos da tutela e por parte da sociedade em geral constituem fatores de desmotivação que conduzem a sentimentos de desânimo, frustração, cansaço e tristeza”. Mas esse conjunto de fatores negativos “não paralisa os professores na sua ação profissional; no seu ambiente de trabalho, os professores recebem e proporcionam aos outros encorajamento, motivação, autoestima e confiança necessários ao exercício da profissão”. E apesar das medidas que levam ao individualismo competitivo, os docentes sentem que existe colaboração e partilha entre pares.

Se por um lado há desânimo, frustração e resignação, por outro há energia, entusiasmo e alegria. Por isso, Fernando Ilídio Ferreira realçou que é preciso perguntar “o que move os professores?”.

PERSPETIVA CRÍTICA DE MUDANÇA. Manuela Esteves começou por sublinhar a “desconfiança flagrante dos poderes públicos em relação aos professores”, que foram noutros tempos chamados de “preguiçosos, privilegiados, ineptos e desinteressados pelos alunos”.

“Há uma ideia muito persistente entre os professores de que não são estimados. Que não são estimados pelos poderes públicos é evidente, mas que não são estimados pelos pais, pelas comunidades, pelos alunos, já não é assim tão evidente”, frisou, lembrando que, apesar de tudo, a profissão docente é das mais confiáveis para os portugueses. “A desvalorização do conhecimento novo, mas também do conhecimento transmitido através da escola tem, evidentemente, algum reflexo na valorização social dos professores e na autoridade que lhes é conferida e na que eles próprios assumem”, considerou a investigadora, lembrando ser necessário saber valorizar o envolvimento e o empenho dos professores e das escolas no trabalho com os alunos e com as comunidades onde estão inseridos, bem como multiplicar as vozes docentes no sentido de partilhar socialmente o trabalho que é feito nas escolas.

Manuela Esteves disse ainda ser fundamental “uma perspetiva equilibrada e crítica de mudança” e que a construção desta perspetiva “deve corresponder a um esforço coletivo e, depois, ter a sua tradução nos espaços de formação de professores. Da formação inicial à formação contínua e à formação especializada, o melhor que se pode fazer é preparar profissionais críticos. Conviria que a formação valorizasse o leque de competências de que os professores precisam, sendo que uma delas é a capacidade de juízo crítico, que também convém que lancemos sobre nós e sobre o grupo profissional”.

A ÉTICA É INTERIOR À PROFISSIONALIDADE. Isabel Baptista, por seu lado, sublinhou a necessidade de colocar na agenda sindical a ética profissional docente e que, quando se fala nesta temática, fala-se também da necessidade da profissão se afirmar no espaço público e de construir uma relação mais próxima e de pertença a uma comunidade profissional.

Nessa perspetiva, é preciso definir valores e missão, de forma a dar resposta a questões como quem somos e o que significa ser professor. “Falar de ética é falar de decisão profissional e este é um aspeto em que hoje temos de investir”, debatendo e tomando uma posição coletiva sobre a definição da profissão, o que a caracteriza, “criando referências e padrões que ajudem a criar coesão, orientação interna, afirmação pública e consciência política”. Um trabalho que nunca está fechado – “mas não basta ficar pela afirmação pública de valores, é preciso definir comportamentos, assumir procedimentos.”

Segundo Isabel Baptista, alguns professores falam em desgosto da profissão como um desgosto de amor. “Perdeu-se o ethos, no sentido de caráter, autoridade. Onde é que reside o caráter? Onde é que reside a essência da profissão? Isto é uma responsabilidade também das organizações sindicais, porque a ética não é uma cosmética, não é algo que vamos acrescentar ao que fazemos. A ética é interior à profissionalidade, cobre todas as dimensões do exercício profissional”.

TIRANIA, PÂNICO E SILÊNCIOS. No final da conferência, vários professores mostraram as suas preocupações sobre o presente e o futuro da profissão. Fernando Ilídio Ferreira ainda teve tempo para mostrar a sua preocupação pelo “pânico” que habita nas escolas, face à “tirania” exercida sobre os professores, “que têm de provar constantemente que são excelentes”.

Mário Nogueira encerrou a conferência afirmando que “os silêncios” que hoje se notam em algumas escolas são reflexo do desânimo dos docentes e que é necessário travar o caminho de desvalorização quer da imagem dos professores, quer do sistema de ensino. O que os nossos governantes querem para a sociedade do futuro é “jovens menos qualificados e com salários menores, e portanto, uma sociedade mais injusta e menos solidária”, realçou o secretário-geral da FENPROF.

A próxima conferência deste ciclo tem como tema Ensino Superior e Ciência: a (des)construção de um sistema”.e vai decorrer em Coimbra, no dia 20 de abril.

Maria João Leite/A Página da Educação

cartaz em anexo

Mais informações no site da FENPROF

A Conferência no Porto é dia 18 de abril (sábado), pelas 9h45, no Auditório da Esc. Sec. Carolina Michaelis.

Autoridade Profissional docente sentidos  de uma mudança urgente

A participação é aberta a todos, sócios ou não dos sindicatos da FENPROF.

A Escola Secundária Carolina M. fica situada na zona da Boavista, sendo que tem também uma estação de Metro nas proximidades.

Anexos

A3 8 CONFERENCIAS CONFERENCIA PORTO

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